segunda-feira, 15 de abril de 2019

Gente humilde

Hoje algumas lágrimas que em mim há algum tempo habitam teimaram em sair e vagar pelo meu rosto. É a dor de uma perda. Perda de afeto, de cumplicidade, de convivência. Uma perda.

Enquanto estive na rua, debati-me em vão para que elas não saíssem, mas... foi só pisar em casa que desisti da luta e disse-lhes: vão, minhas meninas, desaguem no oceano da minha pele. E me entreguei. No meio da respiração ofegante, ouço o barulho da tv. No outro quarto, minha mãe via um jornal. Paro pra assistir por alguns minutos: histórias tristes. Gente que perdeu, gente que sofre. Pessoas com dor, com um coração que dói. E me pego pedindo a Deus por elas. Então concluo o óbvio: não sou a única que sofre. Senhor, acode. Senhor, ajuda. E lembro o que dizia a canção:

"São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar"
(Chico Buarque)

A diferença: eu creio.

quarta-feira, 27 de março de 2019

A vida


Mistério - Os Arrais





Desde que ouvi esta canção pela primeira vez, esta reflexão reside na minha mente. A vida é um mistério. Podemos observar suas consequências, seus fatores, mas é fato que a coisa em si nós não podemos sequer tangenciar. Nossos pensamentos não são sequer do tamanho de um grão de poeira para que possamos sentir o impalpável mistério da vida. Somos barro, pó, sopro. Ainda assim, em nosso coração foi plantada a eternidade. Como pode algo de tamanha finitude relacionar-se com um ser eterno. Deus em Sua infinita misericórdia nos fez desejosos da eternidade. Nos fez desejar a vida, ainda que sejamos barro. Somos peregrinos aqui. Somos, como Jó, seres a quem cabe arrepender-se no pó e na cinza.

Fico por aqui nestes punhados de pensamentos... Muito mais a dizer se acrescentar a melodia da canção... Que me parece, com suas "pseudo resoluções" (na verdade, as notas apontam para uma resolução ainda que não sejam óbvias, vocês entendem? rs) apontarem também para o infindo... O que não se conclui: "o que é já existiu, e o que há de ser também já existiu, Deus trará de novo o que já passou" (Eclesiastes 3:15)

sábado, 2 de março de 2019

O trono

"O túmulo está vazio. O trono, não" (Ziel Machado)
Quando uma criança conversa com outra criança, ela olha para o lado. Mas quando temos uma criança conversando com um adulto, aquela vai, certamente, precisar olhar pra cima para poder lhe olhar nos olhos. Da mesma forma, um adulto, quando olha uma criança, precisa olhar para baixo.

Nosso olhar sobre o caos que nos cerca e por vezes, mos invade não precisa ser engessado. Para se olhar de outra perspectiva, é preciso que se reconheça a necessidade para tal e que se queira mudar esse olhar. Deus nos move a fazê-lo. Se o Pai não nos der uma boa chacoalhada, nosso olhar será sempre o mesmo e não enxergarmos nossas vidas nem o mundo da perspectiva do trono. É desse lugar que João, preso, é convidado a olhar o mundo a sua volta: um mar agitado e revolto, mas que obedece a voz de um Deus soberano e poderoso. É na tempestade que sua mansa voz acalma o mar e ganha a perspectiva que tem de fato: poder e grandiosidade.

Precisamos aprender a ouvir essa voz mesmo quando o caos nos invade. Deus não somente acalma a tempestade, nos dá paz em meio a turbulência, mas Ele nos ensina que um Deus bondoso, poderoso e soberano está no controle de tudo. E Ele está conosco.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Apenas uma abstração

Tanto quanto baste. Nem muito para que eu me acostume com tua ausência e tu te dissolva em algumas lembranças etéreas. Nem pouco ao ponto de estar ainda turva a tempestade de areia que se instaurou entre nós. Mas que seja no momento exato, no fio da navalha e cerre de cima a baixo o lixo que nos separa.

A mais bela canção

Estou no deserto. Então vá se acostumando com minha presença por aqui. Ora um pássaro pia ao norte. Ora um corvo anda a espreita. Nas duas situações, me resta confiar. Voltar os olhos para o monte de onde me vem o socorro. Ele que não dormita nem dorme sabe. Eu não sei. Você não sabe. Mas Ele sim. E Ele vem. Vem ao meu encontro. Vem me socorrer. Estende as mãos e diz: "eu entendo". "Eu entendo o que ninguém mais pode sequer imaginar, mas eu entendo". Sinto como se uma água fresca, um perfume de jasmim penetrasse meu interior: "eu entendo". E cessa a inquietação. Assim, como quem pisca, como quem sonha com flores e acorda segurando uma orquídea. Nenhuma canção jamais soaria tão bela: "eu entendo".

A mim... Só resta confiar. Só resta agradecer. Sim, porque Ele entende. Ele sabe. E sigo na minha montanha russa do coração, mas sabendo que sempre que estiver lá em cima achando que vou despencar, saberei: "eu entendo".

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Sobre mágoas

Se pudesse lhe falar...
Diria que todos temos nossas fragilidades. Tenho as minhas. Cometi os meus erros. Não fujo deles. Compreendo-os como parte da minha história, com os quais devo aprender.
Não lhe direi: eles se foram. Não. Eles estão sendo ressignificados, perdoados por Deus.
Nossa ira é fraudulenta. Não se deixe guiar por ela. Ela é enganadora, mesquinha...
Nossas mágoas e dores, lançamo-nas aos pés da cruz, que é o melhor lugar para elas.
Você se enclausurou. Encontra-se em um lugar em que não posso penetrar, um lugar inacessível, um lugar de pedra.
Se meu erro foi colossalmente imperdoável (penso que não foi) ou passível de misericórdia, não lhe cabe julgar, somente a Deus. E Este, meu amigo, Este mesmo que a todos pode julgar e condenar, me absolveu. Portanto, não te cabe me condenar.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Carta a um incrédulo

O que vou escrever aqui é fruto de vivências, sofrimentos e, em particular, de alguns problemas de relacionamento interpessoais que me ferem. Estamos no deserto. Estamos a procura da estrela do oriente para que nos guie e nos leve aonde devemos estar. Nem mais longe, nem mais perto: exatamente onde devemos estar.

Preciso escrever uma carta. É uma carta para alguém incrédulo. Segue o texto.

Eu sei. Você não acredita mais. Você entrou no barco sem saber muito bem para onde ele ia, mas cá está. Vê-se em posição desconfortável, incômoda. "Não vim para que tenham paz". Se você acha que minha presença na sua vida é para lhe fazer mais feliz, para lhe dar paz... Bem, eu sei que sua presença na minha vida não é para isso. Posso até encontrar felicidade, alegrias, um certo sossego em algum relacionamento, mas... Certamente, o outro nunca será um "match" para meu padrão. Nunca ninguém se equipará ao meu padrão. Somos todos exigentes nesse sentido. Queremos todos felicidade plena, beleza plena.

Preciso ser honesta: esta felicidade plena não está em mim. Não está em você. Não está em qualquer outra pessoa porque... Somos reflexos. Reflexos! Pura imagem do que outrora fora pleno e belo ainda que sendo imagem. Não somos um fim em nós mesmos. Somos (ou deveríamos ser) placas sinalizadoras. Apontamos para o único ser supremo e pleno em amor que é Deus ou... Apontamos para a direção de tudo que não é Ele. Estamos sempre nesse jogo. Estamos sempre ora apontando para Ele, ora nos desfigurando.

Já teve a experiência de ganhar um objeto de decoração ou mesmo uma bolsa e fotografá-lo assim que ganhou e também muitos anos depois? Algumas coisas ficam tão diferentes que olhamos e pensamos "esta não é mais a bolsa que ganhei". Esta bolsa, este objeto perdeu a referência. Perdeu a beleza que espelhava outrora. Mas... Permita-me relatar uma experiência diferente.

Quando criança ganhei de minha mãe, um palhacinho. Um boneco de cabelos curtos de lã amarelo e muito gracioso. Lembrança cara de um momento feliz. Estávamos na Alemanha e eu passaria meu aniversário lá. Tenho este palhacinho até hoje (sim... Algumas coisas eu guardo! rs). Obviamente, não tem o mesmo viço de antes, mas... Curiosamente e muito curiosamente, olhar para ele me leva a contemplá-lo e, ao contemplá-lo, recupero em minha mente todos os momentos em que ele me serviu de consolo, de alegria. Algo peculiar acontece: ele se torna tão belo quanto antes.

A questão é que não somos padrões. Não somos os próprios padrões que criamos ou que gostaríamos de ser. Ao olhar para o outro, precisamos ver que este outro não é e nunca será nosso padrão. A boa notícia é que há, sim, um padrão. Todos nós apontamos para uma direção. Se por um lado, nossa feiúra nos distancia da imagem de Deus, por outro, nossa beleza remete à beleza Dele.

Isso me ensina muito sobre o desapego... Por mais que eu tente me apegar a algo que julgo próximo, palpável... Descubro que se trata tão somente de um padrão etéreo e volátil, um padrão terreno. E então volto à minha procura novamente e encontro Cristo.

Poderia terminar esta carta aqui. Estaria muito bem terminada.Mas quero lhe dizer: cada vez que você encontrar algo (hobbies, pessoas, objetos, prazeres...), cada vez, toda vez, lembre-se: esta coisa NÃO é o padrão. Esta coisa não tem em si nenhum, ou melhor, NEM SOMBRA de requisito para lhe servir de padrão. Não lhe trará consolo, paz, amor... NADA, NEM NINGUÉM que pereça pode servir de padrão para você. Fomos feitos à imagem e semelhança Dele. Nossa única razão de existir é Nele. Nosso único porto é Ele, pois Ele é o único eterno. Procure. Mas saiba que só há um lugar possível para sua existência.

NEle.