domingo, 1 de outubro de 2023

"O Avanço da Fênix" e a natureza humana


"O Avanço da Fênix" (em inglês, "Fênix" no plural) foi uma daquelas gratas surpresas na Netflix. De tanto assistir séries coreanas (muitas, de época), os algoritmos do meu perfil acharam de me recomendar outras séries asiáticas. Que bom. "O Avanço da Fênix" é uma série chinesa e de época, daquelas que requerem um tanto de paciência para assistir, pois elas acontecem em uma outra configuração de tempo. Mas pense que isto é positivo, pois nos força a desacelerarmos e a entendermos o tempo da história. 

É uma série de 70 episódios e, além da trama em si, o que me motiva a escrever sobre ela é que esta obra de arte estará em breve indisponível na plataforma (27/10/23), então logo após a leitura desta crítica, corre lá pra ver.

Como uma série chinesa de época, tem todo um contexto ético-político muito interessante de ser analisado. A honra, o respeito aos anciãos, o código de ética praticado. Mas, no meio disso tudo, a busca pelo poder e aí passamos a conhecer melhor as personagens da história. Passamos a enxergar um pouco da humanidade delas. Cada uma com suas aspirações e interesses. Entre elas, uma jovem mulher herdeira de uma dinastia derrotada e banida. Ao seu lado, um príncipe que busca "erradicar o mal" e, nessa busca, vale-se do mesmo mal que quer erradicar.

Representado pelo príncipe e por seus irmãos também herdeiros, as contradições do ser humano e aquilo que eles podem mostrar de mais perverso. Na busca pelo trono, vemos conspirações por todos os lados, enganos, mortes e frustrações (ou como eu digo, "treta por cima de treta")

E o que falar do figurino e do cenário? São belíssimos e quase que andam lado a lado com os outros elementos que nos transportam para outro tempo e lugar. A meu ver, são coadjuvantes nessa empreitada. Junto com o texto, a linguagem de câmera, o tempo da trama, o figurino e o cenário nos levam a explorar uma China ainda pouco conhecida aqui por nós ocidentais.

Devo confessar que não estou habituada com produções chinesas e acho até difícil falar sobre os atores, mas faço aqui uma menção para a protagonista da série, a atriz Ni Ni (Feng Zhiwei) que mostra uma atuação primorosa.

Por tudo isso, é uma série que vale o investimento de tempo. Você vai sair, no mínimo, refletindo um pouco mais sobre a natureza humana. Então corre lá antes que fique indisponível.

sábado, 10 de setembro de 2022

Do Rock in Rio, música de Marte e Etnomusicologia

     Imagem: @actionvance


Hoje é sábado e vou ficar em casa para assistir ao Rock in Rio. Deixa só minha mãe (vulgo, D.  Encrenca) ouvir isso, kkk... Essa é uma das benesses de morar sozinha. A TV é minha... Mas, brincadeiras à parte, isso suscitou em mim muitas lembranças e reflexões.

Fui a duas edições do festival. Não me pergunte quando! Lembro que vi pela primeira vez uma das minhas bandas favoritas: Dave Matthews Band e também o lendário Neil Young. O cara é mesmo uma lenda! Na época, jovem que era, não me passava muita coisa pela cabeça a não ser "carpe diem": aproveitar o momento, curtir a juventude, viver a vida, essas coisas todas que passavam na cabeça de qualquer jovem normal dos anos 2000. Naquela época, já professava a fé cristã e vivia dentro da igreja aquele dilema "música gospel x música do mundo". Mas pra uma "roqueira" que ouvia Mozart, nada disso fazia sentido ALGUM na minha cabeça. Lembro de ouvir música medieval (cantigas de Santa Maria, pra piorar) e me perguntar como Deus era tão bom que dava inspirações tão belas ao homem. Então eu simplesmente "amassei" todas as críticas e todas as acusações à "música do mundo" e joguei no lixo da cozinha.

Não digo que façam o mesmo que eu... Mas, na época, isso meio que me resolveu muita coisa. Sentia-me culpada por ouvir "música do mundo"? Mas neeeem de longe! Na minha cabeça de musicista (eu já tocava piano, violão, já cantava) eu estava contemplando o belo e o belo vinha de  Deus. 

As coisas não são tão simples assim, mas hoje, etnomusicóloga e professora de música e acima de tudo isso, cristã, entendo que tudo o que os nossos sentidos apreendem precisam ser considerados à luz da palavra de Deus. Precisam ser entendidos sob uma perspectiva noética. Se você me perguntar: "Esta música 'x' é boa ou é ruim?" Eu vou, provavelmente, responder: "depende..." Ou então algo como "sim e não". Acredito que o principal problema seja reduzir algo tão complexo como uma obra de arte (aqui "obra de arte" enquanto produto artístico feito pelo homem). O homem é complexo. E como reduzir algo assim a categorias "bom ou mau"? 

Já observou uma casa ou uma pessoa atentamente? Se você conhece alguém simpático pela primeira vez, você vai, provavelmente, gostar dessa pessoa. Mas basta um pouco mais de tempo para que você perceba os defeitos dela. O nariz vai lhe parecer um pouco grande, talvez, o riso, escandaloso, a personalidade, extrovertida demais... Enfim, não há como conhecer alguém perfeito. Como poderíamos nós exigir que o produto feito por mãos humanas seja também perfeito. Não, não é. E isso se aplica a qualquer obra de arte. Seja ela produzida por cristão ou não cristão. 

Mas isso nos leva a uma outra questão: seria uma obra produzida por cristãos  igual a de um não cristão? Sim e não (risos). Como diferenciar aquilo que é produzido com os mesmos padrões? Considerando a música ocidental, como fazer algo diferente se ambos cristãos e não cristãos temos as mesmas sete notas musicais? E aí, amigo leitor(a), aquela diferença "música do  mundo x música gospel (ou evangélica)" vai por água abaixo. Mas queremos ir além da forma aqui e, neste caso, a pergunta persiste. Como responder a esta questão. Próxima parada: etnomusicologia.

Não tentarei aqui explicar o que estudei exaustivamente por dois anos no mestrado, mas algo simples de se dizer é que etnomusicologia seria algo como um estudo antropológico da música e isso só é possível porque o homem produz música e quando ele a compõe, a compõe para uma comunidade, ele está, de certa forma, orientado pelas ideologias daquela comunidade. Assim, é impossível separar o homem de sua obra e sua obra do contexto em que vive. Por isso todos nós, em um sentido, ouvimos "música do mundo". Como brinca um jovem pastor conhecido pelo ciberespaço, "Até onde eu sei, não tem música em Marte, nem em Vênus, então eu ouço 'música do mundo' mesmo".

Pois muito bem. Mas não haveria então nenhum tipo de distinção entre música cristã e não cristã? Quando essa pergunta explode no meio dos meus pensamentos, não me vem à mente as músicas que ouço na minha igreja local, mas as canções das quais ouço só falar cujas letras e ritmos mais se assemelham a músicas não cristãs do que cristãs. Gostaria muito de citar exemplos aqui, mas como são canções das quais não lembro, eu realmente não tenho como citar. Talvez expressões como "apaixonado por Jesus" e coisas assim. Mas sei claramente a sensação que é ouvi-las; é como ver alguém vestido de fúcsia em pleno funeral. Destoa. Agride os ouvidos. Incomoda. O ponto é se música é algo produzido por homens e não se pode separar o homem de sua obra e, por sua vez, este homem está organicamente ligado a uma comunidade, o que envolve a criação artística é tudo o que envolve o seu criador.

Cada homem cria, elabora, produz a partir de uma cultura. Não se poderia esperar que Beethoven compusesse "Bohemian Rhapsody" ou que Queen escrevesse "A paixão segundo São Mateus". A música é feita para um ouvinte e o ouvinte está inserido em uma cultura. Mas, se por outro lado, o que dizer de músicas diferentes, de períodos diferentes que parecem dizer o mesmo? Daí, vamos precisar encontrar esses elementos que se encontram. São elementos mais da ordem do conteúdo do que da forma (separação meramente didática aqui). Um homem do século 21 pode partilhar da mesma visão de Bach que compôs "A paixão segundo São Mateus" no tocante à sua fé. Então estamos falando de uma


mesma "visão de mundo". E isso é algo que todo mundo tem. Todo homem se apropria/constroi uma visão de mundo a partir da qual ele opera no mundo. 

Por isso não acredito em divisões que desconsiderem o aspecto cultural e ideológico da arte. "Esta música é boa ou não?" Depende... O que ela lhe diz? Há possibilidade de diálogo? De alguma forma, ela lhe aponta a beleza do Criador? Qual é a visão de mundo que está por trás dela? Sua relação com ela é de obediência cega ou você a confronta?

Gosto muito de Projeto Sola, os Arrais, mas, em todo um universo que me foi ofertado de belíssimas canções, de séculos e culturas diversas, por que raios eu passaria todos os meus anos ouvindo somente estas bandas que sitei?' Sigo ouvindo Dave Mattews, entendendo que são músicas produzidas por homens e, portanto, pecadores que carecem da graça de Deus (assim como os meninos do Sola). Homens que têm suas crenças, suas visões de mundo, suas idiossincrasias. Ouço nas canções harmonias complexas, células rítmicas ricas e empolgantes e também ouço suas histórias cotidianas porque música é tudo isso.

Voltando ao Rock in Rio, entendo que minha mãe, uma senhora de 84 anos, convertida há anos, que frequentou igreja neopentecosal e cultiva em si diversos tipos de "pré-conceitos" tenha muita (muita mesmo) dificuldade de entender isto, mas espero que você, leitor, possa estar em paz com o que aprendeu. Espero tê-lo(a) ajudado.

sábado, 2 de julho de 2022

Uma boa receita de rock

 




Certo dia, eu estava andando na rua quando olhei para a traseira de um ônibus. Na janela, uma propaganda de uma banda que parecia "cool", com um nome, no mínimo, curioso e de visual bem rock n' roll para os padrões da geração Z. Então, assim que alcancei a calçada, dei meus "googles" para descobrir que banda era aquela. Alguns links depois, percebi que já havia topado com eles, mas, na época, assisti um vídeo (vídeo "vídeo" mesmo) e pensei: "Ah, é igual Led Zeppelin". Sim, amigos... Estou falando de "Greta Van Fleet"!


Meu primeiro encontro com a banda não foi lá essas coisas como vocês podem supor. Os primeiros acordes até estavam me ganhando, mas quando Josh Kiszka abriu a boca, eu pensei: "Meu Deus, Robert Plant renascido!" e, na época, esqueci de fazer algo que um crítico jamais deve deixar de fazer: conhecer primeiro. Foi somente com a propaganda no ônibus que me interessei em investigar e saber como foi que meninos tão jovens resolveram fazer rock "dasantiga". E vamos nós!


Quase que inevitavelmente, a primeira coisa que me saltou aos ouvidos foi a voz de Josh.. Ouvi e ouvi e vi... Procurando, confesso, algumas "escorregadelas". Corrijam-me se eu estiver errada, mas acredito que ele seja autodidata no canto. De qualquer modo, o que ele nos apresenta é uma voz com invejável extensão vocal, de ótimo suporte respiratório e com um brilho que parece ter sido forjado nos ensaios de garagem mesmo. O garoto fez direitinho o trabalho de casa. 


E a guitarra? Banda de rock que é banda de rock tem que ter uma guitarra presente e, não raro, protagonista. E GVF tem. Ouvindo o Zeppelin e o GVF percebo que a guitarra do GVF é mais "sujinha", parece que tem um acento a mais de overdrive. É uma guitarra, por vezes, clássica. É uma assinatura da banda. 


O que dizer da composição teclado, guitarra e bateria? Nas faixas "Broken Bells" e "Flower Power" caiu como uma luva! Quase com um certo tempero de "The Doors" no teclado. Mas Sam (que assume tanto o teclado quanto o baixo) também alterna o tempero com uma boa dose de baixo regado a frases modestas, mas expressivas. Destaque para a faixa "Safari Song" que revela um lindo diálogo entre baixo, guitarra e bateria.


Para coroar, temos composições que parecem ter sido inspiradas nas raízes de blues e rhythm n' blues do rock n' roll mais "raiz". Quase como se os meninos tivessem se encapsulado em uma viagem no tempo e nos presenteassem  com uma mesa farta de belos timbres e acordes que conversam muito bem entre si. E sigo além, a música de GVF é pictórica. Ela nos descreve cenas e narrativas de um outro tempo, de outra esfera. É uma música transcendental. E aí, especificamente, neste ponto, encontro a maior semelhança com o Led Zeppelin. Mas, dizer que GVF é cópia do Zeppelin, pura e simplesmente, é limitar ambas as bandas. Se por um lado, Zeppelin tem faixas que flertam com a música indiana ("The Battle of Evermore", por exemplo), GVF tem todo um caminho pela frente ainda a dizer a que veio. Só posso dizer que até o momento, estou aproveitando.

domingo, 10 de outubro de 2021

Sobre "Alta Fidelidade", a música e a vida

 



Ontem assisti "Alta Fidelidade". De novo. Lembro que quando vi a primeira vez, gostei muito, mas não sabia precisar muito bem por quê. Não que eu saiba agora, mas depois de viver as experiências que vivi, posso ter uma noção do porque vale a pena passar duas horas em frente a tela para conhecer esta história.


O título do filme no original é exatamente o mesmo e ele já dá uma pista de que o filme não trata apenas de relacionamentos, mas é também um filme sobre música. A história começa com Rob sendo abandonado por sua namorada, Laura. A cena se passa na casa de Rob e ele tenta demover Laura da ideia de ir embora a qualquer custo. Sua namorada não cede e deixa Rob com uma série de questionamentos, dentre eles por que essa situação se repete em sua vida. Assim, ele lista seus "top 5" términos e vai contando a história de cada um deles e cada um possui sua própria trilha sonora. Música e vida se entrelaçam, revelando o que está mais intricado nas personagens. Assim, cada relacionamento de Rob tem uma trilha sonora. E não só na trama, mas a música tem um importante papel no filme até mesmo pelo fato dele ser dono de uma loja de discos.


Ao se perguntar por que sempre acaba abandonado, Rob segue revisitando seu passado e também lidando com seu rompimento atual. Nesse caminho, ele descobre e revela muito de si. Ele se mostra um cara egoísta, com seus medos, obsessivo e chega mesmo a distorcer a realidade se vitimizando. Acredito que por isso mesmo o filme encanta. Não se trata aqui da heroína típica de comédias românticas dos anos 90, mas, sim, um homem, mal resolvido, com suas questões e seus medos. Por extensão, pode se tratar de qualquer pessoa real.


O filme fala também da vida. Rob projetava nos seus relacionamentos sua sede existencial, seu desejo de saciedade. E, revivendo cada um deles, Rob se descobre despido de qualquer coisa que o pudesse proteger e completar. No fim, Rob descobre que, mesmo diante da impossibilidade de saciar nossa sede em um relacionamento, ele pode viver para uma pessoa apesar das suas fraquezas. E aqui a música novamente se apresenta uma forte interlocutora, sinalizando com “I believe" de Steve Wonder que ter esperança é uma necessidade humana. Gostei muito desse final. Não que seja surpreendente ou inusitado. Mas ele mostra o quanto pessoas de verdade têm o potencial de recomeçar.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

"Relatos do Mundo", Tim Keller e o sofrimento









 Enquanto estou aqui parada sem saber como começar esse texto enquanto vou repassando os pontos que quero abordar. Bem, todo fim de semana gosto de dedicar algum tempo à sétima arte. Houve um tempo que eram clássicos, mas hoje em dia sucumbi àquela tão conhecida plataforma que vocês conhecem. 

Achar um bom filme é como fazer uma boa descoberta. Não limito aqui "bom filme" ao orçamento, mas algo que capture seu coração e te tire do lugar comum. Vou deixar de fazer suspense e entrar logo nos pormenores. Assisti ontem (ou há alguns dias, pois não sei quando essa postagem vai ser publicada) a "Relatos do Mundo". Já estava na minha lista há algum tempo, mas sabe como é... Escolher um filme ou não depende do humor do dia. O filme nem tem um enredo, assim, extraordinário. A trama conta uma história que já vimos algumas vezes em diversos filmes. Mas então por que falar dele? Primeiro, porque tem o selo "Tom Hanks" de qualidade. Segundo, porque ele aborda o sofrimento de perspectivas diferentes e porque estou lendo "Caminhando com Deus em meio à dor e ao sofrimento" do Tim Keller. O diálogo entre os dois é, simplesmente, inevitável.

Antes de discutir os pontos que me saltaram à vista, é preciso entender o contexto do filme. E não vou me desculpar por escrever sem amarras. Ou seja, se houver spoiler, spoiler haverá. No velho oeste americano, quando um veterano de guerra encontra uma órfã que convivia com os índios Kiowa, ele decide levá-la aos seus parentes ainda vivos, enfrentando, junto com a garotinha, diversos perigos na jornada. Captain Kidd (Tom Hanks) ganhava a vida lendo as notícias de outras cidades nas comunidades em que passava e, viajando com Johanna (Helena Zengel), os dois acabam criando um vínculo de afeição.

A historia dos dois é permeada por sofrimento, mas o primeiro a ser evidenciado é o de Johanna. A pequena órfã viu seus pais e sua irmãzinha morrerem de forma hedionda pouco antes de ser encontrada por Kidd. A forma como ela lida com o sofrimento é bem diferente da do capitão. Enquanto ele visualiza uma linha reta, um movimento que o leva a não revisitar o lugar de sofrimento, ela vê um círculo. Em determinado ponto da viagem em que os dois conseguem, apesar da barreira da linguagem, se entender, ela deixa explícito que é preciso revisitar o sofrimento para se seguir em frente. Enquanto Kidd não vê sentido no sofrimento, ela o enxerga como um ponto de partida. 

Ainda, em outros pontos do filme, a visão de Kidd sobre a dor vivida o guia em relação à Johanna. Para ele, o sofrimento deve ser evitado a qualquer custo. Por isso ele diz a Johanna para não entrar na casa onde seus pais foram mortos. Para Kidd, o importante é manter a pequena órfã longe daquilo tudo. Mas Johanna disse: "Johanna go". Sim, ela foi. Ela entrou na casa, viu as manchas de sangue, viu tudo desarrumado, pegou sua bonequinha e saiu dali. Saiu pronta pra seguir viagem. Kidd ficou de longe olhando. A ele cabia levá-la a salvo para longe do lugar de dor.

Além de Johanna, Capitão Kidd tinha ele mesmo suas próprias dores. Serviu em duas guerras e deixou a esposa a sua espera em uma cidade. As ações de Kidd, em alguns momentos, pareciam uma vã tentativa de redimir seu passado de sangue. Até sua disposição em ajudar Johanna. Quanto à esposa, ele sabia que, em algum momento, teria de lidar com ela e com o seu passado antes da guerra. Em algum momento, teria de voltar. E é quando sua viagem com Johanna chega ao fim que ele retorna à sua cidade e descobre que sua esposa faleceu e não está mais a sua espera. Em seu diálogo com um velho amigo, Kidd deixa claro que seu sofrimento era uma maldição. Ele estava sendo punido pelos crimes de guerra através da morte da esposa. Ao que seu amigo retruca: "é apenas uma doença".

Em "Caminhando com Deus em meio à dor e ao sofrimento", Tim Keller começar por abordar o sofrimento sob diferentes perspectivas. Kidd seria um moralista, pois seu pecado é a causa do mal que sobreveio à sua esposa. E Johanna entenderia o sofrimento como parte da vida. A questão é que a forma como entendemos o sofrimento pode impactar diretamente nossas ações. Podemos, simplesmente, correr dele desesperadamente ou abraçá-lo como Cristo ensinou e não, isso nada tem a ver com masoquismo, mas com dar ao sofrimento o lugar que lhe cabe: os pés da cruz.

A fé cristã, como aponta Keller, nos ensina a ver que o sofrimento tem propósito. Ela transcende o moralismo e o secularismo de nossos dias. Nem o sofrimento é maldição (como para Kidd), nem uma fatalidade (como para Johanna). 

Ainda não terminei o livro de Keller e por isso seja precipitado esmiuçá-lo. Mas o diálogo com o filme me pareceu tão evidente que merecia alguma reflexão. O ponto é como nossa visão sobre o sofrimento norteia nossas atitudes e nossa relação com o outro. Isso impacta diretamente nossas ações. Ou nos torna capazes de seguir adiante, processando e ressignificando a dor ou nos prende a ela, de alguma forma. O melhor é que não tenhamos medo do sofrimento, mas que vivamos a alegria em meio a dor.

domingo, 16 de maio de 2021

A obediência é anterior à "felicidade"

 

(Noah Siliman/unsplash)



Vou começar este texto já concluindo: sua obediência a Deus é anterior à sua "felicidade". Respire e leia novamente: "sua obediência a Deus é anterior à sua 'felicidade'". Há tanto o que dizer sobre isso que as ideias estão, neste exato momento, brigando para serem a primeira. Vou começar com a "felicidade", sim, entre aspas porque esta não é verdadeira (porque nem sempre isto está óbvio).

Todos nós temos uma ideia de felicidade que é, na maioria das vezes (creio), dinâmica e se amolda às nossas vivências. Você pode, por exemplo, quando pequeno ter tido o sonho de ser professor e pensar que para ser feliz, teria de se tornar um. Nesse sentido, felicidade é algo que se projeta para o futuro. Não é algo pertencente ao presente. Por outro lado, você também pode ter pensado que felicidade é vivenciar os momentos em família ou com amigos. E então, precisamente, nesses momentos, você é feliz. Nos dois exemplos, o conceito de felicidade é construído a partir de algo em que acreditamos ser "felicidade". Se considerarmos, felicidade como construção, precisamos ser honestos e nos perguntar: a partir do que se dá a construção do que conceituamos "felicidade". E esta é, por agora, a pergunta mais necessária a se fazer. 

Podemos entender "felicidade" algo como: "para ser feliz, preciso de X ou Y" (e então levar em conta tanto a projeção para o futuro quanto as experiências vividas no presente), mas há ainda um conceito de felicidade que só pode existir em oposição ao de sofrimento. Se estou em dor, é possível que compreenda "felicidade" como sendo a ausência dessa dor: "para estar feliz, preciso me livrar de X ou Y". O ponto até então é que, seja qual for a base para esses conceitos de "felicidade", eles não abarcam a perspectiva paulina, não harmonizam com Filipenses e outros escritos. Vou então, com muito temor, refletir sobre esta perspectiva de felicidade. 

O que Paulo nos ensina? Primeiro, vou falar sobre felicidade X sofrimento. Paulo sofreu. Essa é uma constatação. Mas não podemos dizer que era infeliz. Um homem infeliz não diz "alegrai-vos". Um homem infeliz não ouve "a Minha graça te basta" e responde "De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo." (2 Co. 12:7). Um homem infeliz é uma pessoa insatisfeita. Nada lhe basta, nada lhe preenche. Mas a Paulo, bastava a graça do Altíssimo: "a Minha graça te basta". Então ele era um homem satisfeito. Uma pessoa satisfeita não precisa de X ou Y para ser feliz porque ela JÁ TEM  o que precisa. O discurso de Paulo é consonante ao do salmista, no salmo 23 (o Senhor é meu pastor, de nada terei falta). 

Ainda sobre o sofrimento, Paulo tinha um "espinho na carne" que lhe causava dor e buscou a Deus, pedindo a Ele que o livrasse dessa dor. Pediu três vezes, ou seja, ele insistiu. Não era simplesmente algo que não o incomodasse. E Deus não retirou dele esta dor. O sofrimento de Paulo não se opunha à sua felicidade. Os dois coexistiam. Paulo era feliz APESAR do seu sofrimento. E agora cabe um parêntesis.

Somos treinados a evitar o sofrimento a qualquer custo: "Desce daí, se não vai cair/Tome este remédio pra dor de cabeça/ Passe esta pomada para hematomas/Evite tal pessoa, pois ela lhe causa dor". Não estou aqui fazendo uma apologia da dor ou dizendo que não devemos tratá-la. Pelo contrário! Imagine que sua dor de cabeça seja causada por problemas de visão e você só trata com analgésicos. Você vai sufocar a dor, mas não vai tratá-la. O que Deus faz com Paulo é TRATAR a dor ao invés de extirpá-la porque isto era necessário e a dor tinha um propósito ("para que em mim habite o poder de Cristo").

Paulo escolheu obedecer. Abraão também. Lembremos de seu exemplo: levou Isaque e a lenha para o holocausto e seguiu para o lugar de sacrifício. Duvido muito que Abraão estivesse feliz, caminhando para o o holocausto, tendo a seu próprio filho como "cordeiro". Mas ele escolheu obedecer. E, somente por obedecer, Abraão pode ouvir: "esteja certo de que o abençoarei e farei seus descendentes tão numerosos como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar" (Gn. 22:17).

O ponto de convergência entre Paulo e Abraão se dá no salmo 37, principalmente nos versos: 

"Confia no Senhor e faze o bem; habita na terra e alimenta-te da verdade.
Agrada-te do Senhor, e Ele satisfará os desejos do teu coração.
Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e o mais ele fará." 
(v. 3-5, grifo meu)

É, precisamente, no "agrada-te do Senhor" que reside o conceito de felicidade cristã, mas tal conceito não é possível sem confiança: "confia no Senhor". É preciso confiar e conhecer a bondade de Deus e sua soberania para poder entregar a Ele nosso caminho. Logo, temos aqui uma felicidade que não se pauta sobre circunstâncias terrenas, experiências presentes, futuras ou, simplesmente, ausência de dor. O que temos é uma obediência anterior à felicidade, temos o "agrada-te" primeiro e, somente nesse deleite e alegria que, em si, já é o estado de felicidade, a satisfação dos desejos de nossos corações agora consonantes à vontade do Pai. Portanto, só é possível sermos satisfeitos quando a obediência à ordem "agrada-te" é anterior à satisfação dos desejos do nosso coração, pois só é possível a satisfação dos desejos que harmonizam com a vontade de Deus. Então se você se deparar com alguma situação ou escolha na qual se oponham obediência a Deus e felicidade, faça a escolha óbvia: obediência.








quinta-feira, 29 de abril de 2021

Amiga poesia

 



Amiga poesia, 

Você que me é querida, sensível e voraz. Perdoe-me por hoje, só por hoje talvez. Mas, neste dia de céu nublado e quarto minguante, vou preferir prosa. Vou destilar, fruir impressões tais, caminhar por aqui e ali, desbravar matas e encontrar pequenos paraísos perdidos de mim. Pequenas doses de alegria que este momento me concede. E vou ter um dedinho de prosa aqui comigo mesma. Eu sei, pareço Narciso, mas acredite: é só impressão. Você, leitor, é bem vindo para ouvir e quiçá me ofertar com sua simpatia. 

Como ia dizendo, hoje me fiz ouvir. Com uma voz firme, gentil e precisamente clara. Perguntei, incomodei, cutuquei. E ouvi. Sim, ouvi com atenção, busquei empatia, busquei diálogo. Uma palavra que percorresse todo o caminho entre meu ser, meu coração, mente e o coração e mente do outro. E ouvi. 

De início, palavras vagas, confusas, arredias... Mas me calei sobre isso e pensei: talvez lhes sejam necessárias, talvez não as saiba tão vagas. E ouvi. Entendi que trocávamos palavras apenas. As minhas, desejosas de nomes e indicações, apontavam uma direção. Mas as que ouvia... Não cumpriam nenhum papel além de serem jogadas ao vento. Assim, cada uma voando, voando... Sem indicar nenhum paradeiro. E montei o quebra-cabeça. Bem... Do meu jeito, com as peças que me foram dadas a muito custo.

Não me fez mais feliz ou triste a imagem que as palavras conferiam... Apenas constatei. Apenas vi. E percebi a fragilidade e confusão do meu interlocutor. E com uma última frase de apoio, distante e desconsertada, eu o deixei pontuar e finalizar nossa conversa.

Não me entristeceu a fraqueza com que se indispôs a se revelar... Cobriu-se com um véu e se fez pretensamente presente em nosso diálogo. Que pena... Mas é tudo o que irei dizer sobre isso. Afinal, despir-se é uma escolha.

No mais, a alegria me brindou pela coragem. A coragem em, despudoramente, erguer minha voz. Pois, sim, tenho voz e ela se fez perfeitamente audível. E apontei claramente o caminho para o qual eu precisava seguir e, para seguir, precisava saber... E soube. E vi. Entendi. 

Então minha amiga, compreenda que, por vezes, precisamos deixar as palavras correrem livres, voláteis, etéreas. Aquelas que ficam, por algum motivo as fazem. Aquelas que se vão foram destinadas a isso. Quanto a mim, falei, disse, indaguei, cutuquei e constatei. E agora, vamos a próxima coisa.


Créditos imagem: Sushil Nash (unsplash)


quinta-feira, 22 de abril de 2021

Manhattan

Em um céu cinzento te vi
Um céu cinzento de Manhattan
De nuvens sem pele, sem forma
Informes em sua melancolia
Ternas como eu as queria

E andei sob o céu cinza
Ameaçava chover
Mas chuva acaricia
Não as poderia receber

Assim, entre o azul e a chuva
Você subsiste
Resiste
Encontra-se distante, cinza
Uma passado imaginado
Uma mancha na parede
Uma gota de água
A encher meu copo
Sede

terça-feira, 20 de abril de 2021

Fome

Não tenho fome
Eu SOU fome
Em mim irrompe a ausência de toda uma vida,
Em mim grita um buraco na alma
Não me dê relações efêmeras, frívolas
São como migalhas
Ora me iludo por elas
Ora as deixo
Ou as semeio
As rego
Nada nasce
Nada alcança
Um átomo sequer
De um desejo qualquer
De uma vida quase morta
Só um fio
Um ponto
Uma interseção me aponta a luz
Consolo
Paz
Pão
Imagem
Graça
Redenção

quinta-feira, 8 de abril de 2021

R$ 25 o quilo do camarão e a eternidade

 Hoje saí para comprar duas peças de mármore. Preciso fazer uns consertos no apê e as peças são fundamentais. Então pesquisei algumas marmorarias na internet, liguei e a primeira, de cara, me deu um ótimo orçamento. E me pus, em plena tarde carioca, na rua para comprar as tais peças.

Cheguei no lugar e parecia, de fato, como dizer… Uma espécie de oficina? Barulho alto, lugar pra estacionar e, escada acima, o atendimento. Comprei as pedras e, como fui informada de que poderia retirar no mesmo dia uma hora depois, saí pra dar uma volta. E nesse ponto eu vou tentar parar de narrar uma tarde ordinária, não muito quente e, de certa forma, enfadonha. Não, leitor, vou pular a parte que me diverti com os chás que escolhi no mercado local, que tomei um açaí (na rua, claro) e nesse meio tempo troquei uns whats com um amigo. Pra que acrescentar isso ao texto? Que graça tem? Seria interessante dizer que achei o bairro nada amistoso para pedestres ou que percorri algumas farmácias procurando um suplemento em falta para minha mãe? Nada! Carros vão e vem. Pessoas atravessam, se arriscam no sinal. Sacolinhas de plástico são distribuídas para os clientes. Obras acontecem. Tudo tão corriqueiro, tão ordinário. Tudo o mesmo. O mesmo ritmo, o mesmo tempo debaixo do sol. 

E volto a contar o que aconteceu. Voltei à marmoraria. Peguei as pedras (pesadas que estavam!) e pedi um carro de aplicativo para voltar para casa com o “pacotinho”, leve, leve… Chegou o carro e entrei. Tentei resolver um pagamento com afinco e muita concentração, porém sem sucesso. O boleto, com o código de barras todo arranhado, não poderia ser lido de jeito nenhum. Foi quando eu desisti do pagamento e ouvi o bordão: “É 25, é 25, é 25 o quilo do camarão”. E aquilo me chamou a atenção. Como?

Preciso respirar um pouco antes de me explicar… O carro do camarão me “despertou” do boleto? Sim. Minha mente mudou o foco e de repente vi camarões a minha frente, sendo preparados, cuidadosamente tratados e pensei egocentricamente: “Por que quero camarões? Eu nem mesmo sei prepará-los? Nem saberia escolhê-los…” e algo me libertou da importância do carro do camarão: se, de fato, como alguns cientistas dizem, Andrômeda se chocar com a Via Láctea, que diferença faz saber ou não fazer o camarão? Mais ainda: que diferença faz comprar o camarão ou não?

O camarão apodrece. E apodrece até rápido. A diferença entre o camarão, o carro do camarão e nós é só uma questão de tempo. Nós duramos um pouquinho mais. Como diz o salmista “a vida do homem é semelhante à relva”. Nasce, cresce e morre. Então… Qual é a graça?

A graça não está em nós, mas Naquele que tudo criou. Ele, sim, é eterno. Ele, sim, faz o carro do camarão ter seu propósito no mundo. Nele todas as coisas existem e se fazem necessárias. Daí, penso: melhor eu aprender a fazer camarão. Vai que um dia dá vontade de comer?

terça-feira, 6 de abril de 2021

Estabilidade

 Hoje estive na minha psiquiatra e ela disse algo que não ouvia há uns 3 anos: "Estou te achando estável". Caro leitor, sim, hoje você vai ler sobre bipolaridade. A palavra "estabilidade" soa como música aos meus ouvidos. Soa como aquele troféu após uma corrida difícil. Soa como uma bela vista após 4 horas de trilha com trechos bem íngremes: "estou te achando estável". No meu entender, consegui "passar de fase" no videogame. Não fora só pronunciar "estável", ela sugeriu uma redução na dosagem da medicação. Uma pequena redução. Um teste. Um "veja como se sai" e amanhã vou poder dizer melhor...

Não é só a palavra "estabilidade", mas é tudo o que ela implica: exercício físico regularmente, medicação todos os dias, treinar a mente para perceber gatilhos, ter passado por um divórcio, por desilusões, frustrações, estar todo o tempo se autoavaliando, observando humor, fazendo anotações. Estabilidade também implica se conhecer, saber seus limites, trabalhar quando é possível e saber a hora de descansar, de parar. "Estabilidade". Que doce gosto o dessa palavra!

"Estabilidade" é algo a se conquistar, mas, confesso: pode não ser eterna. Um paradoxo talvez, mas é assim. Lide com a estabilidade como uma dádiva, como uma planta a ser cultivada. Plante em terreno fértil e regue regularmente. É a cada dia, a cada pôr-do-sol. É conhecendo a sua porção, sua fragilidade. É voltar ao ponto de partida sem medo, toda a vez que for necessário. É seguir caminhando para frente também sem medo. O que eu posso lhe dizer é que é Deus quem sustenta minha estabilidade. É Ele quem faz meus neurotransmissores funcionar e assim eles seguem, me mantendo estável.

Não tenha pressa de conseguir a tão desejada estabilidade. Ela virá como uma pena, sem que você dê conta de si. Apenas viva, conheça-se, não tenha medo de suas idas e vindas. Elas fazem parte da bipolaridade. Apenas saiba que, em algum momento, você pode ouvir esta música suave e gentil nos seus ouvidos: estabilidade.

E assim eu sigo: na certeza de que Deus me sustenta e rege não só minha existência, mas também todas as coisas. E você me pergunta: "o que isso tem a ver com estabilidade?". Respondo: tudo, não se põe o sol todos os dias em todo o mundo?

terça-feira, 30 de março de 2021

Retorno

 Lua cheia, março de 2021


"Eu olhei a tristeza nos olhos e sorri
Mesmo quebrantado pela vida que escolhi
Da janela eu vi
Cada estação fugir
Como as árvores eu permaneço no mesmo lugar
No outono, no inverno, eu espero primavera chegar
Da estrada eu quis
Retornar pra onde parti
Da distância avistei a alegria e a esperança
Das migalhas que desperdiçamos, faremos jantar
Eu voltaria atrás
Pra tentar me avisar
Que o caminho será escuro
Mas que Cristo é a luz do mundo
Deixe Ele te falar quem você é
Que a Palavra te desfaça
Que te afogue em Sua graça
Só a cruz esconderá quem você não é"
(Os Arrais, 17 de janeiro)

Hoje sou essa canção. A canção do "eu voltaria atrás pra tentar me avisar". Eu diria exatamente o mesmo: o caminho será escuro, nada será fácil, mas Cristo estará ao seu lado. E penso nas possibilidades. Nas escolhas que poderia ter feito que me levassem a outro destino, a outro lugar. Não foi. Não será. Então entrego nas mãos de quem pode, de fato, mudar o curso do meu caminhar.
"Que o caminho será escuro, mas que Cristo é a luz do mundo". Tenhamos essa confiança. Não somos um barco à deriva, não estamos à mercê do caos. Não. Tudo caminha para Sua glória. Tudo caminha para Seu propósito e o Seu propósito é bom. Tenhamos essa confiança. Porque Ele é bom. Porque não tem faltado com Sua palavra. Porque Ele cumpre o que promete. Porque tem cuidado de nós.
Se sucumbirmos às notícias, aos revezes do caminhar nesta terra, lembremos, como peregrinos, então não nos sujeitamos a Ele e Ele é. Ele é a única coisa que importa. Ele é o início e o fim de todas as coisas. É Nele que está nossa esperança, nosso olhar. 
Ao me deparar neste ponto, eu quis retornar. Quem me dera retornar. Não creio que faria tudo diferente. Eu o teria amado mais cedo. Teria adorado mais cedo. Teria lhe rendido minha vida mais cedo. Mas só posso seguir na minha fragilidade e fraqueza, sabendo que Ele é a minha força. E aos olhos de Deus, sou justa por meio Daquele que se entregou por mim. Ele sabe o propósito dos fios escuros na tapeçaria da minha vida.
E concluo este breve desassossego dizendo que Ele é o ponto de partida. Sempre. Para nossas inquietações, nossas desilusões, nossos medos e desapontamentos, só podemos partir Dele. Só é possível ter esperanças Nele.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Um cobertor maior

 Lua Nova, janeiro de 2021.

 

Hoje quero escrever sem amarras. Quero escrever livre como um riacho descendo corredeira abaixo. Sempre me proponho a isso, nem sempre consigo, eu sei, mas hoje é necessidade, hoje é querência.

Nesta manhã, acordei muito mal. Estou desde ontem mal. Um sintoma emocional e físico que conheço muito bem: angústia. Se você é bipolar, deve conhecer bem esta velha companheira. Não tenho receita para evitá-la, mas se tivesse, pergunto-me se deveria fazê-lo (como aquela história de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”). O que eu posso dizer é que não tem remédio pra isso.

Se por um lado, não há remédio... Você pode se perguntar por que estou escrevendo esse texto. De fato, não descobri a cura, mas este não é de todo um caso perdido e aqui me proponho a pensar no que faço quando estou neste estado.

Primeiro, não tente negar. É pior. Dói ainda mais. Reconheça e identifique o sintoma e apenas o saiba presente e parou por aí. Segundo, não “mergulhe” nele. Não o alimente, nem dê a ele mais do que o que ele precisa. Terceiro, procure se distrair. Se há algo que capture sua atenção, faça-o. Neste exato momento, eu estou escrevendo. Estou me concentrando em algo que cativa meu coração. Quarto, procure as pessoas que te assistem: médico, psicólogo, terapeuta... Tente manter um registro do seu humor e passa informações detalhadas sobre você para seu médico. Quinto, procure seus amigos. Não se isole. Sim, você terá seu momento de solitude (e não solidão), que é muito importante, mas evite dar oportunidade para a angústia te engolir.

Por fim, nessas horas, lembro sempre de quem eu sou e em quem eu acredito e não há como fugir deste pensamento. Há um dito popular que diz “Deus dá o frio conforme o cobertor”. Não sou muito fã de ditos populares, mas não é por isso que considero este tão falacioso. Lembro de Paulo, Jó e Davi, que passaram por tantas provações. Não. O cobertor deles era pequeno, bem pequeno. Paulo pediu a Deus a cura e Ele lhe respondeu: “a minha graça te basta”. O que isso me diz? Que nossos cobertores são pequenos e finos até, mas que, ao recorrer a um pai bondoso e poderoso, Ele nos dá um cobertor potente e nos mantém aquecidos até que a noite passe. Essa é a minha certeza. Esse é o motivo pelo qual escrevo esta manhã e sei que, embora eu não tenha forças pra lutar contra a angústia, Deus tem. Ele é a minha armadura.

Espero ter despertado sua consciência para uma luta mais justa e menos desigual contra o transtorno e a angústia e que você saiba que, se por um lado, não há cura para todo mal, há remédio para cada tipo de dor.

 

Até a próxima lua.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Feliz Ano Novo!

 

Lua cheia de dezembro, ano 21 do 21º século.

 

Meus dedos indecisos teimam em uma ideia fixa, mas nada de uma palavra só. O ano de 2020 nos compele a dizer um emaranhado de desejos e sentimentos que não sabemos ao certo se lhe cabem. Faço uma breve pausa e concluo: sim, cabem. E sigo, humildemente, na minha tentativa ousada de falar sobre este ano tão árduo e complexo.

 

Este foi um ano indigesto e isso, muitos de nós já puderam concluir logo no início, mais ou menos naquela época em que tivemos de encarar o fato de que não havia certezas sobre nada. Comércio parado, educação se transformando de uma forma jamais vista, famílias se desentendendo, pessoas morrendo. Não quero aqui registrar nada novo. É preciso lembrar. Estamos vivendo um período histórico. Sim, todos são, mas este ano... Este ano nasceu com um propósito e veio com uma missão a cumprir e, pelo que tenho observado, tem conseguido êxito.

 

Não sei como foi para você, mas posso apresentar aqui minhas impressões. Preciso, antes, lhe dar um breve contexto de como foi que passei meu 2020. Para além da pandemia, levantei-me e sorri para os meus maiores medos, entendendo que se, por um lado, eu estava a enfrentar um inimigo invisível e microscopicamente menor que eu, por outro (e internamente), meu maior inimigo foi algo plantado na minha vida, algo que fez parte da minha história. E segui com uma questão a resolver, com uma pendência a tratar, com decisões a tomar. Tal como um ferimento cuja bala não foi extirpada, eu sentia dor, mas precisava me movimentar. E assim decidi por um cisma, um corte, uma ruptura, um ponto final. Pausa. Depois da tempestade, tudo me pareceu como um vasto oceano. Sem terra à vista, só o mar e o horizonte. E respiro tranquila. Com ou sem máscara. Este foi meu 2020.

 

Ainda sobre 2020, disse antes que este ano veio com um propósito, com uma missão... Diante disto, me vejo na impossibilidade de escrever algo além do que posso acreditar. Neste ano fomos confrontados com nossa fragilidade humana. Nos olhamos no espelho e não nos sentimos fortes. Nós nos sentimos fora de nossa casca, frágeis, quebráveis. A incerteza e a insegurança se revezaram como sombras do nosso andar. Houve, é verdade, momentos em que vociferávamos como leões postulando que homem X ou Y era melhor do que homem A ou B. Nos demos o privilégio de ter pelo menos alguma fé.

 

Além de fazer com que nos sentíssemos frágeis, 2020 nos apontou para algo mais importante: nos ensinou a olhar para o próximo. Ou deveria (esta é ainda uma lição que pode ser aprendida). E aprendemos que nossa mesa tem o suficiente. Julgávamos precisar de tantas frivolidades e estas se perderam pelo bem da quarentena. Foi melhor assim. Precisamos de pouco. Bem pouco.

 

Este ano também revelou nossa feiura. Perdão, mas não pretendo lhe agradar com meu pensar. Não é esse o intuito. Eu o direi com as devidas palavras. Fosse pela convivência forçada, fosse pela desesperança e pelo medo, 2020 nos olhou de frente e nos disse: “vocês são feios” e feiura, amigo, é algo pertinente e inerente ao ser humano. Assim, Adão ensinou.

 

Além disso, contemplamos como que por espelho a transitoriedade da vida. E, precisamente, nesta altura, me é forçoso dizer que estamos à espera. Estamos à espera do Rei, do grande Criador que com maestria rege belamente a sinfonia do mundo e de nossas vidas. Nada lhe foge. Nada lhe escapa. Ele detém o poder e a bondade sob Suas mãos. O vírus não lhe escapa. A economia, os governos não lhe escapam. Tudo aqui nos aponta para novos céus e nova terra.

 

E eis que vem batendo à porta um novo ano. Continuaremos a acordar todas as manhãs, continuaremos respirando, trabalhando, comendo, dormindo... Se assim Deus permitir. O que mudaria, então? Nada. Ou melhor, um dígito. Então qual seria a razão de se refletir sobre esta passagem. Penso que a primeira coisa a se fazer é se admitir sua efemeridade e que daqui a um ano estaremos nos fazendo exatamente as mesmas perguntas e buscando as mesmas razões. A segunda coisa não poderia ser senão a reflexão em si: o “balanço do ano”. Este é contundente, afiado como uma faca, certeiro como uma flecha bem lançada e aponta para duas coisas: a graciosa mão do Criador (para os de coração grato) e a nossa falibilidade (para os corajosos).

 

E, então, leitor, passo a discorrer sobre algo sobremodo promissor: esperança. Primeiro, é necessário admitir que esperança é algo que pode existir. A partir daí, pergunto: em que espero? Se coloco minha esperança em um galho de árvore (como em uma correnteza), logo não tenho esperança, pois esperança que se esvai não é esperança. Mas se confio e espero em algo eterno, na fonte de todas as coisas, esta espera não se dissipa e não morre. É preciso ter esperança frente ao desconhecido. Não há como abraçar o futuro sem esperança. Não podemos escolher ter ou não um futuro, mas, definitivamente, podemos escolher abraçá-lo com esperança.

 

Portanto, meu desejo a você que me lê não é se despir do medo, pois este faz parte de nossa condição, mas que, ao menos, espere em algo que é eterno, sólido e não se esvai. Meu desejo é que você seja contemplado pelo cuidado do Todo Poderoso e que aprenda a contar os seus dias (para que alcance um coração sábio). Que 2021 venha e o encontre uma pessoa diferente da que percorreu 2020, olhando para o Alto, para o Eterno e para o que mais importa. Que ao se olhar, você se veja sabedor da transitoriedade da vida e da urgência em vive-la da forma que lhe é necessária e boa.

 

Sigamos rumo ao desconhecido.

 

Feliz Ano Novo!

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O que te define?


Sábado passado quebrei meu "jejum" de meses e fui ao cinema. Em pleno jogo do Flamengo. Ruas vazias, estacionamento cheio de vagas, shopping vazio. Não fora o convite partir da minha mãe, feito para mim e minha irmã, eu não teria saído de casa. Não vou adentrar aqui meu gosto pessoal, mas, tirando Marvel e Star Wars sobra pouco do cinema norte-americano que me tire de casa.

Estou falando do mais novo filme "gospel", "Mais que vencedores". O título me remeteu diretamente à Teologia da Prosperidade e confesso que pensei: "mais um filme gospel de teologia reducionista". Ingressos comprados. Lá fomos nós.
A primeira coisa que me chamou a atenção no filme foi a ausência de histórias paralelas. O filme gira em torno de um mesmo núcleo e toda a trama se desenvolve a partir de um mote. Um treinador de basquete de una escola cristã se vê sem time de basquete para treinar. Sua diretora, então propõe que ele treine o time de "cross-country" da escola. Ele torce o nariz, mas aceita por não haver opção melhor. 

Outro ponto foi a trilha sonora. Nada exagerado, apelativo. Um momento de clímax e ela passa a ser somente mais uma personagem, por vezes, passa até por despercebida. Mas voltemos à teologia do filme. 

Ao contrário do que imaginei (felizmente), o filme fala muito mais de relacionamento com Deus do que sobre um pseudo conceito de vitória. É um filme que trata de mudanças a partir do relacionamento com Deus. É um filme sobre aquilo que nos define, sobre se deixar nortear pela direção de Deus.
Poderia muito bem encerrar por aqui e já teria dado o recado, mas preciso observar algo... Depois de "O quarto de guerra", "À prova de fogo" e agora "Mais que vencedores" chegando diretamente às telas de cinema será que poderíamos dizer que está se esboçando uma produção de filmes cristãos para a telona? Tal qual temos de outros gêneros? Eu arriscaria dizer que sim, mas vou esperar mais um pouquinho e ver o que acontece.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Debaixo do sol

Hoje estou com saudade do que ainda não vi. Saudades de sabores que não provei, momentos de eternidade que ainda não vivi.

Explico. Nascemos com um espaço, com um vácuo do tamanho de Deus. A bíblia diz que foi a eternidade foi plantada no coração do homem.

Nascemos com saudades do eterno. De uma vida que só Deus pode nos dar. Nascemos com um buraco do tamanho de Deus.
Há explicações diversas para a vida aqui, mas não quero pontuá-las. Quero dizer da perspectiva cristã. Nascemos com um propósito e aguardamos novos céus e nova terra onde viveremos felizes para sempre (de verdade) com Deus. Aguardamos a redenção, a resolução, aquela nota que fará com que a música até então orquestrada faça sentido. Cristo é a resolução.

Se aguardamos a resolução, fo que vale esta passagem que estamos atravessando? E é precisamente aí que está o ponto da minha reflexão hoje... Vivemos como que a ensaiar este encontro. Como que a dizer: parece que fui feito para outra existência, ainda que não saiba como ela é.

Em Eclesiastes, vemos como pode ser a vida da perspectiva "debaixo do sol". Vemos que a vida é curta, dura e incerta, mas o autor da obra também nos ensina a nos deleitar nos prazeres que nos são dados na vida debaixo do sol. Somos orientados a vivermos os prazeres dessa existência com gratidão, entendendo que estes apontam sempre para o Criador e não só isto: apontam para a vida que teremos com ela. E por isso digo: hoje acordei com saudade da vida que ainda não vivi.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Em homenagem à Maria

Bem, passado o dia das mães (e aniversário da minha mãe), venho aqui compartilhar minhas inquietações. Desta vez, reconheço, um tanto polêmicas, mas escrevo na esperança de elucidar nuanças da 2a melhor data de vendas do comércio.

No calor dos posts que fluíram no meu feed do instagram ontem, li várias postagens enaltecendo a mulher como mãe, divinizando seu papel e a colocando em um status muito similar ao da nossa padroeira. Uma vez ouvi de um professor, doutor em comunicação, que essa data era, em parte, tão celebrada no Brasil por uma associação inconsciente ao culto à Maria. Tive de concordar com ele.

Quais as consequências, ou melhor, o ônus dessa relação? Temos uma mãe divinizada, perfeita. Uma mãe que não fala palavrão e não peca. Não peca?! Aí mora o principal problema... Não a vemos como pecadora, como humana que é, mas como uma mãe sem defeitos. E disso decorre uma série de implicações. Uma delas é não distinguir seus atos e pensamentos.

Outra questão seríssima e igualmente delicada é a da esterilidade. Então "só quem é mãe é quem sabe" (como estava em uma das postagens) passa a ser "só quem concebe" ou "só quem cria"? Quando leio algo assim, me vem logo à mente um nome: Madre Teresa de Calcutá. E uma longa pausa. Deixa eu entender... "Quem concebe é quem sabe", mas e as que não concebem e cumprem seu chamado à maternidade, fazendo discipulos? Pergunto-me: Madre Teresa seria tudo o que foi se tivesse se casado e concebido? Meu ponto aqui segue além... E aquelas que conceberam e não foram mães? Aquelas que se recusaram, de alguma forma, a fazer discípulos, a criar e a formar? Entenda: nossas mamães merecem toda homenagem que pudermos oferecer a elas. A minha, então, merecia um pote de ouro, rss. A questão é: reduzir o chamado ao discipulado à concepção.

É preciso redescobrir o papel da maternidade, dentro dos propósitos de Deus, dentro do que a bíblia ensina como feminilidade. Voltemos a olhar para a mulher virtuosa e sabê-la virtuosa, mas também mãe e  pecadora, pois todos nós que estamos debaixo do sol, estamos na mesma condição.

É isso. Deixo a centelha luzindo...

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Gente humilde

Hoje algumas lágrimas que em mim há algum tempo habitam teimaram em sair e vagar pelo meu rosto. É a dor de uma perda. Perda de afeto, de cumplicidade, de convivência. Uma perda.

Enquanto estive na rua, debati-me em vão para que elas não saíssem, mas... foi só pisar em casa que desisti da luta e disse-lhes: vão, minhas meninas, desaguem no oceano da minha pele. E me entreguei. No meio da respiração ofegante, ouço o barulho da tv. No outro quarto, minha mãe via um jornal. Paro pra assistir por alguns minutos: histórias tristes. Gente que perdeu, gente que sofre. Pessoas com dor, com um coração que dói. E me pego pedindo a Deus por elas. Então concluo o óbvio: não sou a única que sofre. Senhor, acode. Senhor, ajuda. E lembro o que dizia a canção:

"São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar"
(Chico Buarque)

A diferença: eu creio.

quarta-feira, 27 de março de 2019

A vida


Mistério - Os Arrais





Desde que ouvi esta canção pela primeira vez, esta reflexão reside na minha mente. A vida é um mistério. Podemos observar suas consequências, seus fatores, mas é fato que a coisa em si nós não podemos sequer tangenciar. Nossos pensamentos não são sequer do tamanho de um grão de poeira para que possamos sentir o impalpável mistério da vida. Somos barro, pó, sopro. Ainda assim, em nosso coração foi plantada a eternidade. Como pode algo de tamanha finitude relacionar-se com um ser eterno. Deus em Sua infinita misericórdia nos fez desejosos da eternidade. Nos fez desejar a vida, ainda que sejamos barro. Somos peregrinos aqui. Somos, como Jó, seres a quem cabe arrepender-se no pó e na cinza.

Fico por aqui nestes punhados de pensamentos... Muito mais a dizer se acrescentar a melodia da canção... Que me parece, com suas "pseudo resoluções" (na verdade, as notas apontam para uma resolução ainda que não sejam óbvias, vocês entendem? rs) apontarem também para o infindo... O que não se conclui: "o que é já existiu, e o que há de ser também já existiu, Deus trará de novo o que já passou" (Eclesiastes 3:15)

sábado, 2 de março de 2019

O trono

"O túmulo está vazio. O trono, não" (Ziel Machado)
Quando uma criança conversa com outra criança, ela olha para o lado. Mas quando temos uma criança conversando com um adulto, aquela vai, certamente, precisar olhar pra cima para poder lhe olhar nos olhos. Da mesma forma, um adulto, quando olha uma criança, precisa olhar para baixo.

Nosso olhar sobre o caos que nos cerca e por vezes, mos invade não precisa ser engessado. Para se olhar de outra perspectiva, é preciso que se reconheça a necessidade para tal e que se queira mudar esse olhar. Deus nos move a fazê-lo. Se o Pai não nos der uma boa chacoalhada, nosso olhar será sempre o mesmo e não enxergarmos nossas vidas nem o mundo da perspectiva do trono. É desse lugar que João, preso, é convidado a olhar o mundo a sua volta: um mar agitado e revolto, mas que obedece a voz de um Deus soberano e poderoso. É na tempestade que sua mansa voz acalma o mar e ganha a perspectiva que tem de fato: poder e grandiosidade.

Precisamos aprender a ouvir essa voz mesmo quando o caos nos invade. Deus não somente acalma a tempestade, nos dá paz em meio a turbulência, mas Ele nos ensina que um Deus bondoso, poderoso e soberano está no controle de tudo. E Ele está conosco.