Registros de uma travessia, uma jornada chamada vida. Ora sobre desertos, ora sobre campinas. Tudo tem seu tempo debaixo do sol.
terça-feira, 20 de abril de 2021
Fome
quinta-feira, 8 de abril de 2021
R$ 25 o quilo do camarão e a eternidade
Hoje saí para comprar duas peças de mármore. Preciso fazer uns consertos no apê e as peças são fundamentais. Então pesquisei algumas marmorarias na internet, liguei e a primeira, de cara, me deu um ótimo orçamento. E me pus, em plena tarde carioca, na rua para comprar as tais peças.
Cheguei no lugar e parecia, de fato, como dizer… Uma espécie de oficina? Barulho alto, lugar pra estacionar e, escada acima, o atendimento. Comprei as pedras e, como fui informada de que poderia retirar no mesmo dia uma hora depois, saí pra dar uma volta. E nesse ponto eu vou tentar parar de narrar uma tarde ordinária, não muito quente e, de certa forma, enfadonha. Não, leitor, vou pular a parte que me diverti com os chás que escolhi no mercado local, que tomei um açaí (na rua, claro) e nesse meio tempo troquei uns whats com um amigo. Pra que acrescentar isso ao texto? Que graça tem? Seria interessante dizer que achei o bairro nada amistoso para pedestres ou que percorri algumas farmácias procurando um suplemento em falta para minha mãe? Nada! Carros vão e vem. Pessoas atravessam, se arriscam no sinal. Sacolinhas de plástico são distribuídas para os clientes. Obras acontecem. Tudo tão corriqueiro, tão ordinário. Tudo o mesmo. O mesmo ritmo, o mesmo tempo debaixo do sol.
E volto a contar o que aconteceu. Voltei à marmoraria. Peguei as pedras (pesadas que estavam!) e pedi um carro de aplicativo para voltar para casa com o “pacotinho”, leve, leve… Chegou o carro e entrei. Tentei resolver um pagamento com afinco e muita concentração, porém sem sucesso. O boleto, com o código de barras todo arranhado, não poderia ser lido de jeito nenhum. Foi quando eu desisti do pagamento e ouvi o bordão: “É 25, é 25, é 25 o quilo do camarão”. E aquilo me chamou a atenção. Como?
Preciso respirar um pouco antes de me explicar… O carro do camarão me “despertou” do boleto? Sim. Minha mente mudou o foco e de repente vi camarões a minha frente, sendo preparados, cuidadosamente tratados e pensei egocentricamente: “Por que quero camarões? Eu nem mesmo sei prepará-los? Nem saberia escolhê-los…” e algo me libertou da importância do carro do camarão: se, de fato, como alguns cientistas dizem, Andrômeda se chocar com a Via Láctea, que diferença faz saber ou não fazer o camarão? Mais ainda: que diferença faz comprar o camarão ou não?
O camarão apodrece. E apodrece até rápido. A diferença entre o camarão, o carro do camarão e nós é só uma questão de tempo. Nós duramos um pouquinho mais. Como diz o salmista “a vida do homem é semelhante à relva”. Nasce, cresce e morre. Então… Qual é a graça?
A graça não está em nós, mas Naquele que tudo criou. Ele, sim, é eterno. Ele, sim, faz o carro do camarão ter seu propósito no mundo. Nele todas as coisas existem e se fazem necessárias. Daí, penso: melhor eu aprender a fazer camarão. Vai que um dia dá vontade de comer?
terça-feira, 6 de abril de 2021
Estabilidade
Hoje estive na minha psiquiatra e ela disse algo que não ouvia há uns 3 anos: "Estou te achando estável". Caro leitor, sim, hoje você vai ler sobre bipolaridade. A palavra "estabilidade" soa como música aos meus ouvidos. Soa como aquele troféu após uma corrida difícil. Soa como uma bela vista após 4 horas de trilha com trechos bem íngremes: "estou te achando estável". No meu entender, consegui "passar de fase" no videogame. Não fora só pronunciar "estável", ela sugeriu uma redução na dosagem da medicação. Uma pequena redução. Um teste. Um "veja como se sai" e amanhã vou poder dizer melhor...
Não é só a palavra "estabilidade", mas é tudo o que ela implica: exercício físico regularmente, medicação todos os dias, treinar a mente para perceber gatilhos, ter passado por um divórcio, por desilusões, frustrações, estar todo o tempo se autoavaliando, observando humor, fazendo anotações. Estabilidade também implica se conhecer, saber seus limites, trabalhar quando é possível e saber a hora de descansar, de parar. "Estabilidade". Que doce gosto o dessa palavra!
"Estabilidade" é algo a se conquistar, mas, confesso: pode não ser eterna. Um paradoxo talvez, mas é assim. Lide com a estabilidade como uma dádiva, como uma planta a ser cultivada. Plante em terreno fértil e regue regularmente. É a cada dia, a cada pôr-do-sol. É conhecendo a sua porção, sua fragilidade. É voltar ao ponto de partida sem medo, toda a vez que for necessário. É seguir caminhando para frente também sem medo. O que eu posso lhe dizer é que é Deus quem sustenta minha estabilidade. É Ele quem faz meus neurotransmissores funcionar e assim eles seguem, me mantendo estável.
Não tenha pressa de conseguir a tão desejada estabilidade. Ela virá como uma pena, sem que você dê conta de si. Apenas viva, conheça-se, não tenha medo de suas idas e vindas. Elas fazem parte da bipolaridade. Apenas saiba que, em algum momento, você pode ouvir esta música suave e gentil nos seus ouvidos: estabilidade.
E assim eu sigo: na certeza de que Deus me sustenta e rege não só minha existência, mas também todas as coisas. E você me pergunta: "o que isso tem a ver com estabilidade?". Respondo: tudo, não se põe o sol todos os dias em todo o mundo?
terça-feira, 30 de março de 2021
Retorno
Lua cheia, março de 2021
Mesmo quebrantado pela vida que escolhi
Da janela eu vi
Cada estação fugir
No outono, no inverno, eu espero primavera chegar
Retornar pra onde parti
Da distância avistei a alegria e a esperança
Das migalhas que desperdiçamos, faremos jantar
Eu voltaria atrás
Pra tentar me avisar
Mas que Cristo é a luz do mundo
Deixe Ele te falar quem você é
Que a Palavra te desfaça
Que te afogue em Sua graça
Só a cruz esconderá quem você não é"
sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
Um cobertor maior
Lua Nova, janeiro de 2021.
Hoje quero escrever sem amarras. Quero escrever livre como
um riacho descendo corredeira abaixo. Sempre me proponho a isso, nem sempre
consigo, eu sei, mas hoje é necessidade, hoje é querência.
Nesta manhã, acordei muito mal. Estou desde ontem mal. Um
sintoma emocional e físico que conheço muito bem: angústia. Se você é bipolar,
deve conhecer bem esta velha companheira. Não tenho receita para evitá-la, mas
se tivesse, pergunto-me se deveria fazê-lo (como aquela história de “Brilho eterno
de uma mente sem lembranças”). O que eu posso dizer é que não tem remédio pra
isso.
Se por um lado, não há remédio... Você pode se
perguntar por que estou escrevendo esse texto. De fato, não descobri a cura,
mas este não é de todo um caso perdido e aqui me proponho a pensar no que faço
quando estou neste estado.
Primeiro, não tente negar. É pior. Dói ainda mais. Reconheça
e identifique o sintoma e apenas o saiba presente e parou por aí. Segundo, não “mergulhe”
nele. Não o alimente, nem dê a ele mais do que o que ele precisa. Terceiro,
procure se distrair. Se há algo que capture sua atenção, faça-o. Neste exato
momento, eu estou escrevendo. Estou me concentrando em algo que cativa meu
coração. Quarto, procure as pessoas que te assistem: médico, psicólogo,
terapeuta... Tente manter um registro do seu humor e passa informações
detalhadas sobre você para seu médico. Quinto, procure seus amigos. Não se
isole. Sim, você terá seu momento de solitude (e não solidão), que é muito
importante, mas evite dar oportunidade para a angústia te engolir.
Por fim, nessas horas, lembro sempre de quem eu sou e em
quem eu acredito e não há como fugir deste pensamento. Há um dito popular que
diz “Deus dá o frio conforme o cobertor”. Não sou muito fã de ditos populares,
mas não é por isso que considero este tão falacioso. Lembro de Paulo, Jó e
Davi, que passaram por tantas provações. Não. O cobertor deles era pequeno, bem
pequeno. Paulo pediu a Deus a cura e Ele lhe respondeu: “a minha graça te basta”.
O que isso me diz? Que nossos cobertores são pequenos e finos até, mas que, ao
recorrer a um pai bondoso e poderoso, Ele nos dá um cobertor potente e nos
mantém aquecidos até que a noite passe. Essa é a minha certeza. Esse é o motivo
pelo qual escrevo esta manhã e sei que, embora eu não tenha forças pra lutar
contra a angústia, Deus tem. Ele é a minha armadura.
Espero ter despertado sua consciência para uma luta mais justa e
menos desigual contra o transtorno e a angústia e que você saiba que, se por um
lado, não há cura para todo mal, há remédio para cada tipo de dor.
Até a próxima lua.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
Feliz Ano Novo!
Lua cheia de dezembro, ano 21 do 21º século.
Meus
dedos indecisos teimam em uma ideia fixa, mas nada de uma palavra só. O ano de 2020
nos compele a dizer um emaranhado de desejos e sentimentos que não sabemos ao
certo se lhe cabem. Faço uma breve pausa e concluo: sim, cabem. E sigo,
humildemente, na minha tentativa ousada de falar sobre este ano tão árduo e
complexo.
Este
foi um ano indigesto e isso, muitos de nós já puderam concluir logo no início,
mais ou menos naquela época em que tivemos de encarar o fato de que não havia
certezas sobre nada. Comércio parado, educação se transformando de uma forma
jamais vista, famílias se desentendendo, pessoas morrendo. Não quero aqui
registrar nada novo. É preciso lembrar. Estamos vivendo um período histórico.
Sim, todos são, mas este ano... Este ano nasceu com um propósito e veio com uma
missão a cumprir e, pelo que tenho observado, tem conseguido êxito.
Não
sei como foi para você, mas posso apresentar aqui minhas impressões. Preciso,
antes, lhe dar um breve contexto de como foi que passei meu 2020. Para além da
pandemia, levantei-me e sorri para os meus maiores medos, entendendo que se, por
um lado, eu estava a enfrentar um inimigo invisível e microscopicamente menor
que eu, por outro (e internamente), meu maior inimigo foi algo plantado na
minha vida, algo que fez parte da minha história. E segui com uma questão a
resolver, com uma pendência a tratar, com decisões a tomar. Tal como um
ferimento cuja bala não foi extirpada, eu sentia dor, mas precisava me
movimentar. E assim decidi por um cisma, um corte, uma ruptura, um ponto final.
Pausa. Depois da tempestade, tudo me pareceu como um vasto oceano. Sem terra à
vista, só o mar e o horizonte. E respiro tranquila. Com ou sem máscara. Este
foi meu 2020.
Ainda
sobre 2020, disse antes que este ano veio com um propósito, com uma missão...
Diante disto, me vejo na impossibilidade de escrever algo além do que posso
acreditar. Neste ano fomos confrontados com nossa fragilidade humana. Nos
olhamos no espelho e não nos sentimos fortes. Nós nos sentimos fora de nossa
casca, frágeis, quebráveis. A incerteza e a insegurança se revezaram como
sombras do nosso andar. Houve, é verdade, momentos em que vociferávamos como
leões postulando que homem X ou Y era melhor do que homem A ou B. Nos demos o
privilégio de ter pelo menos alguma fé.
Além
de fazer com que nos sentíssemos frágeis, 2020 nos apontou para algo mais
importante: nos ensinou a olhar para o próximo. Ou deveria (esta é ainda uma
lição que pode ser aprendida). E aprendemos que nossa mesa tem o suficiente.
Julgávamos precisar de tantas frivolidades e estas se perderam pelo bem da
quarentena. Foi melhor assim. Precisamos de pouco. Bem pouco.
Este
ano também revelou nossa feiura. Perdão, mas não pretendo lhe agradar com meu
pensar. Não é esse o intuito. Eu o direi com as devidas palavras. Fosse pela
convivência forçada, fosse pela desesperança e pelo medo, 2020 nos olhou de
frente e nos disse: “vocês são feios” e feiura, amigo, é algo pertinente e
inerente ao ser humano. Assim, Adão ensinou.
Além
disso, contemplamos como que por espelho a transitoriedade da vida. E,
precisamente, nesta altura, me é forçoso dizer que estamos à espera. Estamos à
espera do Rei, do grande Criador que com maestria rege belamente a sinfonia do
mundo e de nossas vidas. Nada lhe foge. Nada lhe escapa. Ele detém o poder e a
bondade sob Suas mãos. O vírus não lhe escapa. A economia, os governos não lhe
escapam. Tudo aqui nos aponta para novos céus e nova terra.
E
eis que vem batendo à porta um novo ano. Continuaremos a acordar todas as
manhãs, continuaremos respirando, trabalhando, comendo, dormindo... Se assim
Deus permitir. O que mudaria, então? Nada. Ou melhor, um dígito. Então qual
seria a razão de se refletir sobre esta passagem. Penso que a primeira coisa a
se fazer é se admitir sua efemeridade e que daqui a um ano estaremos nos
fazendo exatamente as mesmas perguntas e buscando as mesmas razões. A segunda
coisa não poderia ser senão a reflexão em si: o “balanço do ano”. Este é contundente,
afiado como uma faca, certeiro como uma flecha bem lançada e aponta para duas
coisas: a graciosa mão do Criador (para os de coração grato) e a nossa
falibilidade (para os corajosos).
E,
então, leitor, passo a discorrer sobre algo sobremodo promissor: esperança.
Primeiro, é necessário admitir que esperança é algo que pode existir. A partir
daí, pergunto: em que espero? Se coloco minha esperança em um galho de árvore
(como em uma correnteza), logo não tenho esperança, pois esperança que se esvai
não é esperança. Mas se confio e espero em algo eterno, na fonte de todas as
coisas, esta espera não se dissipa e não morre. É preciso ter esperança frente
ao desconhecido. Não há como abraçar o futuro sem esperança. Não podemos
escolher ter ou não um futuro, mas, definitivamente, podemos escolher abraçá-lo
com esperança.
Portanto,
meu desejo a você que me lê não é se despir do medo, pois este faz parte de nossa
condição, mas que, ao menos, espere em algo que é eterno, sólido e não se
esvai. Meu desejo é que você seja contemplado pelo cuidado do Todo Poderoso e
que aprenda a contar os seus dias (para que alcance um coração sábio). Que 2021
venha e o encontre uma pessoa diferente da que percorreu 2020, olhando para o
Alto, para o Eterno e para o que mais importa. Que ao se olhar, você se veja sabedor
da transitoriedade da vida e da urgência em vive-la da forma que lhe é
necessária e boa.
Sigamos
rumo ao desconhecido.
Feliz
Ano Novo!